Entenda a crueldade por trás do aumento de feminicídios na Bahia

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Entre janeiro e outubro deste ano, 370 feminicídios foram consumados ou tentados na Bahia. O número é 33.5% mais alto que todo o ano de 2024, quando foram registrados 277 casos, de acordo com o Monitor de Feminicídios no Brasil (MBF), desenvolvido pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (LESFEM/UEL).

A maior parte desses crimes aconteceu durante fins de semana (19,21% aos sábados e 19,77% aos domingos) e em plena luz do sol (54,78%). As casas das vítimas são os lugares onde feminicídios e tentativas mais são cometidos, sendo os locais de 42,36% dos ataques contra mulheres. Logo em seguida estão espaços públicos como ruas, praças e bares, onde ocorreram 28,47% dos casos.

No último domingo (14), ao mesmo tempo em que aconteciam os últimos preparativos para a passeata que mobilizou milhares de pessoas contra o feminicídio na capital baiana, uma mulher de 50 anos quase entrava para essa cruel estatística, atacada com golpes de faca pelo companheiro no bairro de São Marcos. Ela foi socorrida por equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e deu entrada no Hospital Geral do Estado (HGE).

Ela está entre as 240 baianas que sobreviveram a tentativas de feminicídio este ano. Outras 130 mulheres tiveram suas vidas ceifadas, e as formas de matar se mostram cada vez mais dotadas de crueldade. Foi o caso da cantora Laina Santana Guedes, de 37 anos, assassinada a marretadas na varanda da própria casa em Lauro de Freitas em agosto deste ano, e de Rhianna Alves, jovem trans de apenas 18 anos, estrangulada até a morte em Luís Eduardo Magalhães no último dia 6.

Brasil afora, muitas outras situações violentas chamaram atenção este ano e foram o ponto de partida para a realização de mobilizações em diversas capitais no início deste mês. Foram 5.582 feminicídios ou tentativas em todo o país nos dez primeiros meses de 2025. Em fevereiro, uma mulher de 45 anos teve o corpo desmembrado e jogado em um balde com soda cáustica no Paraná. Em setembro, a jovem indígena Harenaki Javaé foi encontrada morta com o corpo carbonizado no sul do Tocantins.

Para Vanessa Cavalcanti, professora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher da Universidade Federal da Bahia (PPGNEIM – Ufba) e integrante do Observatório de Feminicídios, o uso de formas como envenenamento, facadas ou soda cáustica são exemplos de premeditação e de invasão de corpos.

“Sofrimento e dor são observados pelos autores e, para além da crueldade, a necessidade de eliminar, exterminar estão presentes. Comportamentos deste tipo não são só respostas individuais, mas de processos coletivos onde a barbárie e a dominação passam a ser o não reconhecimento da outra pessoa como sujeito. Não são passíveis de luto e de reconhecimento, não há preservação da vida e da liberdade de outrem. Tomar consciência de si e da alteridade é reconhecer no Outro sua humanidade, nos feminicídios ocorre justamente o contrário. As mulheres são reificadas, coisificadas”, diz.

A professora afirma ainda que a desfiguração está inserida na linha de não reconhecimento e de registro do ato, como uma assinatura da violência. Segundo ela, esses atos fazem parte de um processo que define a chamada “machosfera”, subcultura digital formada por homens que pregam discursos antifeministas e disseminam misoginia – que tem ido muito além do on-line.

Com informações do Correio da Bahia// Por Maria Raquel Brito//

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